Além de validar questionário internacional usado em exames mundo afora, os cientistas querem comparar os marcos do desenvolvimento infantil no Brasil e no exterior e analisar semelhanças e discordâncias. Estudo já avaliou mais de 800 crianças no país e encerra neste sábado a busca por famílias com bebês de até dois anos.
Para os pais, cada etapa do desenvolvimento de uma criança é motivo de emoção e de orgulho. Esse momento mágico é, para a ciência, um marco do desenvolvimento infantil. São esses marcos, ou referências, que ajudam os médicos, psicólogos e educadores a entenderem se o crescimento segue o ritmo esperado ou se há sinais de atraso que exigem atenção.
Mas, uma equipe de pesquisadoras sediadas na Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) se perguntou: será que os marcos definidos em estudos internacionais refletem, de fato, o desenvolvimento das crianças brasileiras? Será? Elas foram atrás da resposta.
“É muito importante saber o que é típico e o que precisa de ser melhor compreendido para proporcionar um desenvolvimento infantil que seja o melhor possível”, esclarece a neuropsicóloga Bruna Bragança, mestranda do Programa de Saúde da Criança e do Adolescente da Faculdade de Medicina da UFMG.
“Quando avaliamos uma criança brasileira e encontramos um padrão distinto, conseguimos verificar se esse resultado está compatível com o grupo clínico ao qual ela pertence, ou se há indícios de comorbidades ou outros fatores que precisam ser investigados”, adverte a também pesquisadora Fernanda Pereira, neuropsicóloga e também mestranda do Programa de Saúde da Criança e do Adolescente.
O estudo valida no Brasil o Inventário de Desenvolvimento Battelle – 3ª edição (BDI-3), ferramenta de renome internacional que avalia o neurodesenvolvimento infantil em cinco áreas: cognição, linguagem, motricidade, socioemocional e adaptativa.Mas vai além nessa análise. O trabalho é desenvolvido pelo Laboratório de Psicologia Médica e Neuropsicologia (LAPSIMN), em parceria com o Centro de Tecnologia em Medicina Molecular (CTMM).
Normas brasileiras em construção
O projeto já avaliou mais de 800 crianças de diferentes faixas etárias e está em fase final de coleta de dados clínicos. Para a pediatra Débora Marques Miranda, do Departamento de Pediatria da UFMG e coordenadora do CTMM, é fundamental essa adaptação do questionário à cultura brasileira.
“É importante que a gente tenha normas brasileiras. Assim, é possível dizer de forma mais precisa como a população brasileira se desenvolve nos cinco campos do desenvolvimento dentro de determinada faixa etária. Isso nos permite caracterizar não apenas as crianças típicas, mas também populações clínicas, como prematuros ou crianças com síndrome de Down, por exemplo. E, com isso, entender em quais áreas elas apresentam diferenças em relação ao esperado. Se for o caso!”, explica a professora.
Coleta com bebês de até 2 anos
Para concluir a amostra, os pesquisadores vão realizar um mutirão de avaliações no próximo sábado, dia 30 de agosto de 2025. Para isso as inscrições estão abertas. Mas, desta vez, apenas para famílias com bebês de até dois anos, que possam participar de avaliações gratuitas.
Ainda segundo Fernanda Pereira as sessões são lúdicas, gratuitas e seguras. Elas serão realizadas no campus Saúde da UFMG, no bairro Santa Efigênia, em Belo Horizonte.
“A avaliação não tem caráter diagnóstico e não identifica transtornos como autismo ou TDAH. O objetivo é construir uma base de dados que ajude a mapear o desenvolvimento típico brasileiro e, no futuro, orientar práticas clínicas e pedagógicas”, garante.
INSCRIÇÕES DE CRIANÇAS COM ATÉ 2 ANOS, ATÉ O DIA 29/8/2025: bit.ly/desenvolvinfantil
Os marcos são os mesmos para as crianças brasileiras?
Os marcos do desenvolvimento infantil indicam as habilidades que a maioria das crianças atinge em cada idade. O estudo da UFMG busca responder justamente se no Brasil eles devem ser considerados os mesmos, ou se haveria diferenças entre nós.
A gente preparou um resumo dos principais aspectos esperados de uma criança na primeira e na segunda infância, fases da vida que vão dos 0 aos 7 anos, segundo classificação do Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) dos Estados Unidos, e também da Organização Mundial da Saúde (OMS). Veja no quadro abaixo.
Marcos do desenvolvimento infantil de 0 a 7 anos (Internacionais)
Faixa etária | Principais marcos |
0–12 meses | Segue objetos com os olhos, senta sem apoio, balbucia, responde ao próprio nome. |
1–2 anos | Anda sem ajuda, forma frases simples, reconhece pessoas próximas, empilha blocos. |
2–3 anos | Corre, sobe escadas com ajuda, amplia vocabulário, imita adultos, identifica cores. |
3–4 anos | Conta histórias simples, veste-se com auxílio, desenha círculos, sobe escadas alternando os pés. |
4–5 anos | Usa frases complexas, reconhece letras e números, interage em grupo, pula em um pé só. |
5–7 anos | Lê palavras simples, escreve letras e números, coordenação fina para desenhar e cortar, entende regras de jogos, demonstra maior autonomia social. |
Ciência com impacto direto
A pesquisa integra o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Neurotecnologia Responsável (INCT NeuroTec-R), que promove ciência aberta, inovação responsável e participação social em neurociências. Ao lado do CTMM, da Faculdade de Medicina da UFMG, o instituto busca traduzir descobertas científicas em soluções práticas para a sociedade.
Saiba mais sobre os projetos do INCT NeuroTec-R e acompanhe novidades sobre pesquisas em neurociência aplicada à saúde infantil em INCT NeuroTec-R.

Lucas José, filho da pesquisadora Bruna, aprova o Battelle, um questionário padronizado usado internacionalmente para avaliar o desenvolvimento infantil na faixa etária dos 0 aos 7 anos e 11 meses. O instrumento utiliza atividades lúdicas para estimular a participação, e as crianças mais velhas são convidadas a ler e a escrever algumas palavras, permitindo que suas habilidades cognitivas e de interação sejam avaliadas – Foto: Bruna Bragança
Redação: Marcus Vinicius dos Santos – Jornalista CTMM Medicina UFMG