Desigualdade ainda marca carreira das mulheres na ciência; alerta pesquisadora do NeuroTec-R em entrevista de rádio 

Desigualdade ainda marca carreira das mulheres na ciência
Pesquisa científica e comunicação pública ajudam a enfrentar problemas de saúde e desinformação - Imagem gratuita do banco de fotos vecteezy.com

Marcando a passagem do Dia Internacional da Mulher, a médica pediatra e pesquisadora Ana Cristina Simões e Silva fala à rádio TMC 88,7 FM sobre sua precoce descoberta de vocação, de suas pesquisas em nefrologia pediátrica e muito mais


Mesmo quando produzem tanto quanto colegas homens, mulheres cientistas ainda recebem menos reconhecimento institucional. O alerta foi feito pela médica pediatra e pesquisadora Ana Cristina Simões e Silva, da UFMG, durante entrevista, ao vivo, ao programa “A Cidade é Sua”, da rádio TMC 88,7 FM, em Belo Horizonte.

Integrando a programação especial dedicada ao Dia Internacional da Mulher, a conversa foi conduzida pelos apresentadores André Rocha e Júnior de Castro. 

Pesquisadora do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Neurotecnologia Responsável (INCT NeuroTec-R), a médica pediatra Ana Cristina Simões e Silva, professora da Faculdade de Medicina da UFMG, foi uma das convidadas. Ela é reconhecida por suas contribuições à nefrologia pediátrica e à fisiologia renal, mas também colabora em estudos em outras áreas. 

Outra participante foi a cientista da computação Jussara Marques de Almeida, professora do Departamento de Ciência da Computação da UFMG, referência em desempenho de sistemas computacionais e em metodologias de simulação, uma das mais influentes na pesquisa sobre infraestrutura de internet e redes sociais. 

Deborah Malta, professora do Departamento de Enfermagem Materno-infantil e Saúde Pública da Escola de Enfermagem, e uma das vencedoras do 2º Prêmio Mulheres e Ciência, do CNPq, na categoria Trajetória, contribuiu com o debate por meio de um depoimento gravado exibido durante o programa.

Obstáculos persistentes 

As pesquisadoras também comentaram os obstáculos enfrentados pela ciência no Brasil. O principal deles é o financiamento limitado para a pesquisa.

Grande parte dos projetos depende de recursos de agências públicas, como o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), além de fundações estaduais de apoio à pesquisa. E aí funciona bem a metáfora do cobertor pequeno. Puxa para um lado, descobre o outro. E isso impede que a ciência se desenvolva com constância e continuidade. 

Além disso, Ana Cristina lembra que muitos profissionais da saúde deixam a carreira acadêmica devido à diferença de remuneração paga aos profissionais que se dedicam à pesquisa científica e os que vão para o mercado privado.

A avaliação da carreira científica feminina ainda preocupa especialistas. “Mesmo quando apresentam produtividade semelhante ou superior à de colegas homens, as mulheres nem sempre recebem o mesmo reconhecimento institucional”, afirma a pediatra Ana Cristina Simões e Silva.

Ela relata que ainda hoje, ao comparar currículos acadêmicos, especialmente em disputas por bolsas de produtividade, de maior valor financeiro, homens frequentemente aparecem mais bem posicionados nos processos de classificação.

Maternidade e carreira acadêmica

Outro fator estrutural apontado por Ana Cristina é o impacto da maternidade sobre a trajetória das pesquisadoras. A maternidade pode reduzir temporariamente a produtividade científica devido a períodos de afastamento e reorganização da rotina de trabalho.

A pesquisadora conta que nos últimos anos esse cenário começou a mudar. Plataformas curriculares passaram a permitir o registro de licenças-maternidade, o que ajuda os avaliadores a compreenderem melhor a trajetória profissional das pesquisadoras”, comemora.

Da curiosidade infantil à pesquisa médica

Durante a entrevista, Ana Cristina também relembrou como surgiu seu interesse pela ciência. E a decisão surgiu ainda cedo na vida. “Aos cinco anos”, contou. Ela explicou, também, que, então, queria entender as doenças que afetavam pessoas próximas à sua família.

Com o tempo, esse interesse levou à escolha pela Medicina. Depois da graduação, seguiu na formação acadêmica com mestrado e doutorado e se especializou em Pediatria e Nefrologia Pediátrica, área dedicada ao estudo das doenças renais em crianças.

Hoje, suas pesquisas investigam mecanismos biológicos que regulam o funcionamento dos rins e contribuem para o desenvolvimento de doenças renais. “A pesquisa científica amplia o conhecimento sobre essas doenças e melhora o acompanhamento clínico”, explica.

Entre as condições mais estudadas na nefrologia pediátrica estão malformações congênitas do rim e do trato urinário, inflamações renais e doenças metabólicas que afetam o funcionamento renal. “Mesmo quando não existe cura, o avanço do conhecimento científico permite diagnóstico mais precoce e redução de complicações”, esclarece.

Desinformação nas redes preocupa pesquisadores

O crescimento da desinformação sobre saúde nas redes sociais foi outro tema de destaque na notícia. Ana Cristina alertou que informações divulgadas online sem verificação científica podem confundir pacientes e famílias sobre tratamentos e condutas médicas.

A pesquisadora Jussara Marques de Almeida acrescentou que estudos na área de redes sociais mostram como conteúdos enganosos podem se espalhar rapidamente nas plataformas digitais. Esse fenômeno preocupa pesquisadores porque pode afetar decisões relacionadas à saúde pública.

A discussão também abordou o uso de tecnologias digitais por crianças. Ana Cristina avalia que a proibição absoluta do uso de telas tende a ser pouco eficaz. Para ela, estratégias baseadas em diálogo, orientação e negociação dentro da família costumam produzir resultados mais consistentes.

Ciência e diálogo com a sociedade

Ao final da entrevista, Ana Cristina destacou que a ciência depende muito da comunicação clara com a sociedade. Pesquisadores, segundo ela, precisam estar constantemente desenvolvendo formas eficazes de explicar melhor como o conhecimento científico é produzido e por que ele é importante para a população.

Iniciativas de divulgação científica, como entrevistas em meios de comunicação, ajudam a aproximar especialistas e público. Ao mesmo tempo, fortalecem uma ciência mais aberta e conectada aos desafios da sociedade. E essa perspectiva dialoga perfeitamente com o conceito de Pesquisa e Inovação Responsáveis (PIR), que orienta o trabalho do INCT NeuroTec-R. 

Segundo esse modelo, cientistas, gestores públicos, empresas e cidadãos participam do debate sobre riscos, benefícios e aplicações das pesquisas. Para Ana Cristina, iniciativas de divulgação científica ajudam a reduzir a distância entre pesquisadores e sociedade.

“Quando a população entende como a ciência funciona, também consegue tomar decisões melhores sobre saúde e tecnologia”, resume.

[Ouça a íntegra do programa]

“A cidade é sua – BH”

Apresentação: André Rocha e Júnior de Castro
Veiculação: 14 de março de 2026
Rádio: Transamérica TMC (88,7 FM)

Parte 1 da entrevista
Parte 2 da entrevista


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Texto: Marcus Vinicius dos Santos – jornalista CTMM Medicina UFMG