Homenagem marcou a trajetória do neurofarmacologista pioneiro no estudo de toxinas de escorpiões e aranhas no Brasil e que ajudaram a explicar mecanismos do sistema nervoso
Na manhã de 6 de março de 2026, o anfiteatro Amílcar Martins, da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais, reuniu professores, estudantes e ex-orientados de três gerações para celebrar os 90 anos do neurocientista Marcus Vinícius Gomez.
Durante o encontro, foram lembrados episódios de laboratório, decisões institucionais e momentos pessoais que marcaram vidas e a história da Neurofarmacologia e da Medicina Molecular. Afinal, já são mais de seis décadas de carreira.
Membro da Academia Brasileira de Ciências, o professor ajudou a esclarecer como toxinas de animais peçonhentos atuam no sistema nervoso. Já são bem mais de 200 artigos científicos publicados, além de patentes internacionais e outras contribuições que ajudaram a consolidar essa área no Brasil e também no exterior. Seus estudos, embasam hoje pesquisas sobre dor crônica, neurotransmissores e canais iônicos.
No momento de sua fala, o grande homenageado agradeceu tanto quanto todos os que ali foram homenageá-lo. Em tom emocionado, destacou a importância da esposa Terezinha, falecida no ano passado, dos filhos, noras e netos para seu desempenho pessoal e acadêmico, assim como de vários colegas e ex-alunos.
E que ninguém se engane: Marcus Vinicius Gomez quer continuar se divertindo, como costuma dizer. E planeja novas contribuições. Apesar da longa trajetória acadêmica, afirmou ter ainda algumas ideias que gostaria de desenvolver, revelando sua intenção de continuar colaborando em grupos de pesquisa e de pós-graduação.
Homenagem à dedicação e exemplo
Logo na abertura da cerimônia, o professor Ricardo Santiago Gomez, filho do homenageado, falou, em nome da família, sobre a influência do pai na escolha profissional dele e de seus irmãos, todos ligados à área da educação superior e da pesquisa.
Ricardo recordou frases que o pai repetia como conselhos ao longo da infância e da juventude. Muitos desses ensinamentos, segundo ele, só fizeram pleno sentido anos depois, já na vida adulta e na carreira acadêmica, mais sempre teve alguma que guiou suas decisões e caminhos.
Segundo Ricardo, uma das lembranças mais marcantes da infância era ver o pai chegar do trabalho e, antes de qualquer outra atividade, jogar bola com os filhos no quintal. Só depois voltava aos livros. “Ele também nos ensinou o gosto pelo futebol”, contou.
Legado de novos cientistas
Durante a cerimônia, diferentes pesquisadores destacaram aspectos da carreira e da convivência acadêmica com o homenageado.
O professor Luiz Armando De Marco, atual coordenador do Programa de Pós-graduação em Medicina Molecular da UFMG, recordou episódios da convivência entre os dois. Para ele, o legado de Marcus Vinicius vai muito além das grandes descobertas experimentais conduzidas por ele. “Está sobretudo na formação de novos cientistas e na criação de ambientes acadêmicos colaborativos”, salientou.
De Marco também lembrou que o Programa de Medicina Molecular nasceu a partir da transferência de um grupo de professores do Programa de Farmacologia Bioquímica e Molecular, das dependências do Instituto de Ciências Biológicas (ICB) para a Faculdade de Medicina da UFMG.
A professora Maria Elena de Lima Perez Garcia, outra antiga colega, antes do ICB e agora da Santa Casa de Belo Horizonte, relembrou as parcerias científicas construídas ao longo de décadas de convivência. Desde os tempos do professor Carlos Ribeiro Diniz, pioneiro no estudo de venenos de escorpiões, aranhas e serpentes no Brasil, até os tempos atuais.
Ângela Maria Ribeiro, importante pesquisadora no desenvolvimento da Neurociência no Brasil, também foi uma das convidadas. Ela destacou a generosidade do colega ao estruturar laboratórios e incentivar novas linhas de investigação. “Quando você mudou de departamento, deixou um laboratório totalmente montado para que outras linhas pudessem continuar”, relatou ela, agradecendo pela generosidade..
A fala de agradecimento foi seguida pelo médico Célio José de Castro Júnior, coordenador do programa de pós-graduação stricto sensu em Medicina-Biomedicina da Faculdade Santa Casa de Belo Horizonte.
A homenagem também contou com a presença do neurocientista Michael Brammer, da King’s College London, que veio ao Brasil especialmente para a solenidade. Em sua fala, Brammer destacou como o diálogo científico entre os dois pesquisadores contribuiu para o desenvolvimento de estudos em neuroquímica e neuroimagem.
Outro momento simbólico ocorreu quando o psiquiatra Rodrigo Nicolato, professor da Faculdade de Medicina da UFMG e presidente da Associação Mineira de Psiquiatria, entregou a Gomez uma placa de reconhecimento por sua contribuição à ciência.
O psiquiatra Marco Aurélio Romano-Silva apresentou um panorama da trajetória científica do homenageado. Segundo ele, três aspectos definem essa carreira: a criação de linhas originais de pesquisa em neurofarmacologia, a formação de dezenas de mestres e doutores e a construção de uma ampla rede de colaboradores.
Relações humanas
A celebração reuniu não apenas colegas de profissão, mas também antigos colaboradores e familiares do professor.
Entre eles estava o técnico de laboratório Darcy Ferreira dos Santos, de 85 anos, que trabalhou por 52 anos no Departamento de Fisiologia e Biofísica do Instituto de Ciências Biológicas (ICB) da UFMG. Ele contou que fez questão de comparecer à cerimônia para reencontrar antigos colegas e prestar homenagem ao professor com quem conviveu durante décadas.
“Mesmo com o grande reconhecimento científico, até internacional, o professor Marcus Vinicius sempre prezou pelo relacionamento humano”, relatou. Para Darcy, essa postura ajudou a criar um ambiente de trabalho colaborativo que marcou gerações de alunos e servidores.
Assim, para muitos presentes, a homenagem representou algo maior que uma carreira acadêmica: o impacto duradouro de um professor que ajudou a construir instituições, formar pesquisadores e abrir novas perguntas na ciência brasileira.
Do veneno ao laboratório
Durante a apresentação científica, Romano-Silva retomou a história das pesquisas conduzidas por Gomez desde os anos 1960.
Nascido em Minas Gerais em 6 de março de 1936 — data que coincidiu com a homenagem —, o pesquisador iniciou a carreira científica em 1962. Poucos anos depois concluiu o doutorado em Bioquímica na UFMG e passou a investigar toxinas de animais peçonhentos.
Entre as substâncias estudadas está a tityustoxina, presente no veneno do escorpião brasileiro Tityus serrulatus. Os experimentos demonstraram como essa toxina atua nos canais de sódio dos neurônios, provocando despolarização celular e liberação de neurotransmissores. Esses resultados ajudaram a explicar mecanismos fundamentais do funcionamento do sistema nervoso.
Mais tarde, o grupo ampliou as pesquisas para toxinas da aranha armadeira Phoneutria nigriventer. Entre as moléculas investigadas está a toxina conhecida como Phα1β, capaz de bloquear canais de cálcio. Em modelos experimentais, essa substância demonstrou efeitos analgésicos em diferentes tipos de dor, incluindo dor inflamatória e neuropática.
Parte desses estudos resultou em patentes registradas no Brasil e no exterior e abriu caminho para novas pesquisas sobre analgésicos derivados de toxinas naturais. Você encontra um pouco mais de detalhes dessa trajetória em um perfil produzido pela jornalista Deborah Castro, para o “Projeto Pesquisadores da Faculdade de Medicina da UFMG”.
Construção institucional
Além da produção científica, Gomez também participou da organização de estruturas de pesquisa na universidade. Ele foi chefe de departamento no Instituto de Ciências Biológicas da UFMG e atuou como pró-reitor de pós-graduação.
Em 1989, após se aposentar do Departamento de Bioquímica, aceitou o convite do Departamento de Farmacologia para prestar novo concurso e criar ali um grupo de pesquisa em neurofarmacologia.
Na década seguinte participou da criação de um programa de pós-graduação voltado à farmacologia molecular. Anos depois, com a transferência de parte da equipe para a Faculdade de Medicina, o programa foi reorganizado e passou a se chamar Programa de Pós-graduação em Medicina Molecular.
Hoje, muitos dos pesquisadores formados nesse ambiente acadêmico atuam em universidades brasileiras e também em centros internacionais.
| Mais um pouco da história do homenageado | ||
| Quem é | O que descobriu | Legado científico |
| 👤 Marcus Vinícius Gomez nasceu em 6 de março 1936, em Minas Gerais. Tem 90 anos. | 🔬 Realizou estudos pioneiros sobre toxinas do escorpião brasileiro Tityus serrulatus. | 👨 Formou gerações de pesquisadores em neurociência e farmacologia. |
| 🎓 Formou-se em Medicina Veterinária pela Universidade Federal de Minas Gerais no início dos anos 1960. | 📚 Esses trabalhos ajudaram a compreender como toxinas naturais interferem nos canais de sódio dos neurônios. | 🏫 Foi professor do Departamento de Bioquímica e Imunologia e depois do Departamento de Farmacologia do Instituto de Ciências Biológicas da UFMG. |
| 🔬 Concluiu doutorado em Bioquímica na UFMG (1967) e realizou pós-doutorado na University of Michigan. | 🕷️ Décadas depois, investigou também toxinas da aranha armadeira Phoneutria nigriventer. | 💊 Participou da criação do Programa de Pós-Graduação em Farmacologia Bioquímica e Molecular da universidade, implantado em 2002. |
| 👩 Ainda na gestação, sua mãe sofreu duas picadas de escorpião ao buscar lenha (Seria um prenúncio de sua trajetória? | 📊 Essas pesquisas abriram caminho para estudos sobre dor crônica e neurofarmacologia. | 💡 Aposentado, segue atuando como professor na pós-graduação da Santa Casa de BH e em outros grupos de pesquisa. “Tenho muitas ideias que, ainda, gostaria de colocar em prática!” |
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Texto: Marcus Vinicius dos Santos – jornalista CTMM Medicina UFMG