Café e chá podem ajudar a proteger o cérebro

Café e chá podem ajudar a proteger o cérebro no envelhecimento
Estudo reforça a visão de que hábitos simples podem contribuir para a saúde do cérebro ao longo da vida - Imagem gratuita www.Freepik.com

Pesquisa que acompanhou 130 mil pessoas durante 43 anos sugere que consumo moderado de cafeína pode estar associado a melhor função cognitiva e menor risco de demência. Falta concluir se se trata de causa e efeito, mas a possibilidade é muito positiva para brasileiros.


Durante décadas, o café ocupou dois papéis contraditórios no imaginário popular. De um lado, ele aparece como vilão da ansiedade e do sono ruim. De outro, surge como combustível diário de bilhões de pessoas. Agora, uma pesquisa de grande porte adiciona um novo capítulo nessa história: a bebida pode estar ligada a um menor risco de demência.

Os resultados da pesquisa, da Universidade Harvard, publicados na revista científica JAMA, mostraram isso. Entre os participantes, 131.821 profissionais de saúde, sendo 86.606 mulheres (Nurses’ Health Study, desde 1980) e 45.215 homens (Health Professionals Follow-up Study, desde 1986). Ao todo, foram 43 anos de acompanhamento.

Esse tipo de acompanhamento prolongado é raro e, justamente por isso, chama atenção. Os pesquisadores queriam entender se o consumo de café, chá e cafeína ao longo da vida, teria relação com a saúde do cérebro no envelhecimento.

A resposta curta é que as pessoas que apresentavam o consumo moderado dessas bebidas tiveram menor risco de demência. Seu desempenho cognitivo foi, ainda, ligeiramente superior que o dos outros. A resposta longa é mais complexa, mas é importante chamar a atenção para o fato de que não se trata de remédio, mas de hábito acessível. E que já é um hábito alimentar bastante forte entre nós, brasileiros.

E a doença de Alzheimer?

A doença de Alzheimer continua sendo a causa mais comum de demência. Além disso, o número de casos deve crescer rapidamente nas próximas décadas. Como os tratamentos disponíveis ainda são limitados, a prevenção virou prioridade. Nesse cenário, fatores modificáveis, como alimentação e estilo de vida, vêm recebendo cada vez mais atenção.

Café e chá se tornaram candidatos naturais para investigação. Ambos contêm cafeína e compostos antioxidantes capazes de reduzir inflamação e estresse oxidativo no cérebro. No entanto, estudos anteriores mostraram resultados inconsistentes. Faltavam dados robustos e acompanhamento prolongado. Foi justamente essa lacuna que os pesquisadores tentaram preencher.

Como o estudo foi feito

Os cientistas analisaram dados de dois grandes estudos de saúde que acompanham profissionais desde a década de 1970. Nesses estudos, os participantes responderam questionários alimentares a cada dois ou quatro anos. Assim foi possível observar se e como foram as mudanças reais no consumo de café e chá ao longo da vida desses voluntários.

Ao mesmo tempo, a equipe acompanhou três indicadores principais: diagnóstico de demência, queixas de memória e desempenho em testes cognitivos. Em seguida, os pesquisadores ajustaram os resultados para diversos fatores que poderiam distorcer as conclusões, como doenças prévias, estilo de vida, dieta e histórico familiar.

Esse cuidado metodológico não elimina todas as incertezas. Porém, ele reduz bastante o risco de conclusões precipitadas.

O que resultados mostram

Quando os dados foram analisados, surgiu um padrão consistente. Pessoas com maior consumo de café com cafeína e chá apresentaram menor risco de demência ao longo do tempo. Além disso, relataram menos queixas de memória e tiveram desempenho cognitivo ligeiramente melhor em testes objetivos.

Este efeito apareceu principalmente em níveis moderados: cerca de duas a três xícaras de café por dia. Ou, ainda, uma a duas xícaras de chá. Acima disso, não surgiram benefícios adicionais. Em outras palavras, maior volume não significou melhoria nos resultados.

Outro ponto chama atenção. O café descafeinado não mostrou a mesma associação. Esse resultado reforça a hipótese de que a cafeína pode desempenhar papel central no fenômeno observado.

Por que cafeína influencia cérebro

Os autores propõem algumas explicações plausíveis. A cafeína pode reduzir processos inflamatórios, melhorar a circulação sanguínea e aumentar a sensibilidade à insulina. Também combate o estresse oxidativo. Além disso, estudos experimentais sugerem que ela pode interferir em mecanismos ligados ao Alzheimer, como o acúmulo de proteínas tóxicas no cérebro. O adiamento do declínio cognitivo foi de até 0,6 ano, nos testes.

Ainda assim, esses mecanismos continuam em investigação. A biologia sugere possibilidades, mas ainda não oferece respostas definitivas.

Há controvérsias: o que isso significa e o que não…

Como se trata de um estudo observacional, o resultado desta pesquisa mostra que existe associação entre café e cérebro. Ainda não ficou claro se há uma relação de causa e efeito.

Ou seja, o café pode contribuir para a saúde cerebral. Mas também pode ser que a causa seja outra. Por exemplo, pode acontecer que todas essas centenas de pessoas tivessem hábitos saudáveis, como a prática de exercícios físicos e dormir 8 horas por dia. Em comum elas podem ter o costume de consumir café e chá.

Nesse caso a causa e o efeito das melhoras seriam os hábitos de vida e não necessariamente o beber café. A ciência ainda não separou completamente essas duas possibilidades.

Além disso, a maioria dos participantes era de profissionais de saúde. Isso também limita a generalização para toda a população. O diagnóstico de demência também combinou registros médicos e autorrelatos, o que sempre deixa margem para erros.

Portanto, o estudo não transforma café em tratamento nem em garantia de prevenção. Ainda assim, ele reforça uma ideia mais sóbria: hábitos cotidianos podem influenciar o envelhecimento cerebral.

O que esperar das próximas pesquisas

A ciência agora precisa avançar em três frentes. Primeiro, testar os efeitos em populações mais diversas. Segundo, investigar melhor o papel específico da cafeína. Terceiro, entender limites seguros de consumo para diferentes pessoas.

Enquanto isso, a conclusão mais prudente é direta. O consumo moderado de café ou chá parece compatível com um estilo de vida saudável e pode estar ligado a benefícios cognitivos ao longo do envelhecimento. Não resolve tudo, mas também não é irrelevante.

[Leia o artigo original]

Coffee and Tea Intake, Dementia Risk, and Cognitive Function. JAMA.
Zhang Y. et al. 9 de fevereiro de 2026.

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Atualizada em 9/2/2026, às 15h40


Texto: Marcus Vinicius dos Santos – jornalista CTMM Medicina UFMG

Atualizada em 19/02/2026, às 13h40