No encontro Frontiers Science House, cientistas, líderes globais e sociedade se reuniram para discutir ciência aberta, resistência antimicrobiana, inteligência artificial responsável e o uso de dados confiáveis na formulação de políticas públicas
O Fórum Econômico Mundial (WEF) 2026 foi realizado em Davos, na Suíça, entre 19 e 23 de janeiro. “Um Espírito de Diálogo” foi o tema central das discussões, em um contexto de tensões geopolíticas, avanço da desinformação e desafios globais complexos.
Nesse cenário de incertezas surge a Frontiers Science House, ou Casa da Ciência, atividade que ampliou o espaço dedicado ao conhecimento como base para decisões públicas e privadas. O encontro foi organizado em parceria com o Conselho Científico Internacional (ISC) e diversas outras organizações.
Em paralelo com o Fórum, foram realizadas sessões abertas, que reuniram pesquisadores, formuladores de políticas públicas, lideranças empresariais e representantes da sociedade civil. Juntos, eles debateram riscos emergentes, limites tecnológicos e estratégias para aproximar ciência, inovação e tomada de decisão.
Reduzir distâncias entre produção científica e aplicações práticas, além de reforçar o papel da ciência aberta como infraestrutura para o desenvolvimento sustentável, foram as principais intenções das sessões da Casa da Ciência.
Lideranças do setor científico defenderam que ciência aberta não é um complemento, mas um instrumento central para acelerar descobertas, reduzir desigualdades no acesso ao conhecimento e ampliar o impacto social da pesquisa.
Na sessão de encerramento, intitulada “The 2035 Science Roadmap”, a CEO e cofundadora da Frontiers, Kamila Markram, reforçou essa visão.
Ela explica que a escolha de posicionar a “Science House” no centro de Davos foi deliberada. Justamente “ir aonde o povo está”! Sair de espaços restritos e dialogar diretamente com os tomadores de decisão e com o público interessado. Com isso, o objetivo é ampliar a relevância no debate global.
Resistência antimicrobiana entra no radar como risco sistêmico
Entre os temas mais discutidos, a resistência antimicrobiana (AMR) apareceu como um dos alertas mais contundentes do evento. Especialistas lembraram que a resistência bacteriana a antibióticos já representa uma ameaça crescente à saúde pública e pode se tornar uma crise ainda mais grave nas próximas décadas.
Se medidas coordenadas não forem adotadas, a AMR pode causar mais mortes anuais do que o câncer, até 2050. O alerta foi dado no encontro. Mas, o problema resulta de fatores conhecidos, como o uso excessivo e inadequado de antibióticos, a escassez de novos medicamentos e a falta de políticas globais integradas.
Pesquisadores e representantes da área da saúde defenderam, portanto, uma resposta baseada em três frentes complementares: vigilância epidemiológica mais robusta, incentivo à inovação terapêutica e políticas públicas voltadas ao uso racional de antimicrobianos.
Eles afirmam ser essencial tratar a AMR como um risco sistêmico. Não apenas como um problema médico. Só assim será possível o desenvolvimento de respostas que possam evitar impactos econômicos e sociais de grande escala em um futuro de data imprevisível.
Dados confiáveis como base da confiança pública
Outro eixo transversal das discussões foi a integridade dos dados científicos. Em um ambiente marcado por desinformação e disputas narrativas, participantes destacaram que políticas públicas eficazes dependem de evidências transparentes, verificáveis e reproduzíveis.
Sem dados confiáveis, governos, empresas e instituições tendem a tomar decisões baseadas em informações incompletas ou enviesadas. Por isso, pesquisadores defenderam metodologias que reforcem a rastreabilidade dos dados, a abertura dos processos científicos e a comunicação clara dos limites e incertezas da pesquisa.
Essa abordagem reflete um movimento mais amplo da comunidade científica internacional, que busca tornar o conhecimento não apenas acessível, mas também compreensível e aplicável fora dos círculos acadêmicos.
A confiança pública na ciência, segundo os debatedores, depende menos de autoridade institucional e mais de transparência e prestação de contas.
Inteligência artificial e os limites do modelo atual
A inteligência artificial também ocupou espaço relevante nos debates do Science House. Especialistas discutiram os limites da atual geração de modelos e os desafios que surgem à medida que sistemas de IA dependem cada vez mais da qualidade e diversidade dos dados disponíveis.
Segundo os participantes, manter a utilidade e a confiabilidade da IA exige repensar paradigmas de desenvolvimento antes que os sistemas enfrentem escassez de dados relevantes ou ampliem vieses já existentes. A discussão não se concentrou apenas em desempenho técnico, mas também em responsabilidade, governança e impactos sociais.
Nesse contexto, os participantes apresentaram iniciativas como o AI Polis, uma plataforma que utiliza inteligência artificial para apoiar o planejamento urbano dentro de limites ambientais e sociais. A integração de dados ambientais, econômicos e demográficos é proposta para que o crescimento das cidades seja orientado de forma mais sustentável e informada.
Iniciativas e soluções em destaque
Além dos debates conceituais, o Frontiers Science House serviu como vitrine para projetos e ferramentas voltados à aplicação prática da ciência. Entre os destaques estiveram:
– o Frontiers Planet Prize, voltado ao incentivo de pesquisas interdisciplinares sobre limites planetários;
– o Draghi Tracker, uma ferramenta para monitorar e acelerar a inovação científica e tecnológica na Europa;
– planos para o primeiro laboratório comercial de pesquisa em câncer em ambiente de microgravidade;
– demonstrações de tecnologias emergentes, como baterias estruturais e avanços em computação quântica.
Segundo a Frontiers, essas iniciativas indicam uma mudança de foco. Isso acontece em governos, empresas e organizações internacionais.
Ciência como insumo para políticas públicas
Ao longo da semana, o Science House também funcionou como espaço de encontro entre cientistas, formuladores de políticas, investidores e representantes de organizações não governamentais. O objetivo foi alinhar prioridades e discutir como evidências científicas podem informar decisões em áreas como saúde, tecnologia e mudanças climáticas.
Esse modelo reflete esforços crescentes, em diferentes países, para integrar a ciência à formulação de políticas públicas de maneira sistemática. Iniciativas internacionais, como as lideradas pela UNESCO, também caminham nesse sentido ao defender ciência aberta, cooperação e fortalecimento dos sistemas científicos nacionais.
Um roteiro até 2035
No encerramento do evento, lideranças científicas reiteraram que metas de longo prazo, dependem de cooperação contínua entre países, setores e disciplinas. Tanto para enfrentar emergências climáticas, responder a ameaças à saúde global, ou promover inovação responsável.
Sem ciência aberta, sem dados confiáveis e sem colaboração global, os desafios do século XXI se tornam mais difíceis de enfrentar.
Ao colocar ciência e política em diálogo direto, o Frontiers Science House mostrou que integrar esses campos não é apenas uma questão de vontade. Trata-se de necessidade para produzir respostas mais eficazes e rápidas a problemas que afetam bilhões de pessoas mundo afora.
[Leia a notícia original na integra]
Frontiers Science House: did you miss it? Fresh stories from Davos – end of week wrapFrontiers
Science News. 23 de janeiro de 2026.
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Texto: Marcus Vinicius dos Santos – jornalista CTMM Medicina UFMG