Revisão liderada por cientistas do Trinity College Dublin, na Irlanda do Norte, mostra que dificuldades na infância se associam a envelhecimento cerebral acelerado e maior risco de demência.
Dificuldades na infância, como abuso, negligência e pobreza, podem aumentar o risco de demência décadas depois. Essa é a principal conclusão de uma revisão internacional publicada na revista Current Opinion in Psychiatry.
O estudo foi liderado pelo Global Brain Health Institute, que é vinculado ao Trinity College Dublin, na Irlanda. Também participaram pesquisadores da Colômbia, Egito, Argentina, Chile e Turquia.
Como o estudo foi conduzido
Os autores realizaram uma revisão de pesquisas recentes, publicadas entre 2024 e 2025, sobre traumas e dificuldades na infância. Eles reuniram mais de 50 estudos com dados humanos, com significativa diversidade geográfica e social.
A equipe analisou marcadores biológicos, como relógios epigenéticos, indicadores moleculares do envelhecimento celular, e níveis de inflamação. Além disso, examinou testes cognitivos, dados de neuroimagem e diagnósticos clínicos de comprometimento cognitivo leve e demência.
O trabalho adota o conceito de exposoma. Este termo designa o conjunto de experiências ambientais que acompanham um indivíduo desde a gestação até a velhice. O exposoma integra elementos externos, tais como poluição, alimentação e condições sociais, com outras respostas internas do corpo.
Assim, em vez de olhar apenas um evento traumático isolado, os pesquisadores avaliaram o impacto combinado de múltiplos fatores.
O que os resultados indicam
De forma consistente, as evidências mostram que experiências adversas precoces se associam a:
- envelhecimento biológico acelerado;
- maior inflamação sistêmica;
- pior desempenho cognitivo na vida adulta;
- aumento no risco de demência.
Segundo o trabalho de revisão, a exposição cumulativa a maus-tratos e desvantagem socioeconômica pode elevar em torno de 30% o risco de demência em grandes coortes populacionais. Portanto, o impacto não é apenas psicológico; ele se expressa também em alterações biológicas mensuráveis.
Ainda assim, os autores alertam que muitos estudos utilizam relatos retrospectivos, o que pode introduzir vieses. Além disso, há necessidade de incluir mais populações de países de baixa e média renda nas pesquisas.
Prevenção e resiliência
Apesar do cenário preocupante, o estudo também destaca fatores de proteção. Suporte social, acesso à educação, estabilidade comunitária e atividades culturais ou criativas contribuem para fortalecer a chamada reserva cognitiva, a capacidade do cérebro de resistir a danos.
Intervenções precoces, portanto, podem alterar trajetórias. Políticas públicas que reduzam violência, desigualdade e insegurança alimentar não atuam apenas no presente; elas também influenciam o envelhecimento cerebral futuro.
Os autores defendem que identificar pessoas expostas a dificuldades na infância pode orientar estratégias personalizadas de prevenção. Assim, o modelo do exposoma ajuda a integrar biologia, contexto social e políticas de saúde.
O estudo reforça que o risco de demência não começa apenas na velhice. Ao contrário, ele pode ser moldado desde os primeiros anos de vida. Portanto, investir em ambientes seguros e em apoio às famílias não é apenas uma medida social; é também uma estratégia de saúde pública de longo prazo.
[Leia o artigo original]
Childhood adversities and the exposome in dementia risk and brain health
BAEZ, Sandra; NABIL, Yehia; IBANEZ, Agustin. Current Opinion in Psychiatry, pré-print, 2026.
Matéria relacionada
Desigualdade e acesso democrático podem afetar envelhecimento; descubra como o ambiente modela a idade biológica – 17/07/2025
O que você achou dessa notícia?
Deixe seu comentário! inctneurotecr@gmail.comNo nosso Instagram @inctneurotecrNo LinkedIn do INCT NeuroTec-RExplore mais sobre neurotecnologia e pesquisa responsável aqui no site do NeuroTec-R.
Texto: Marcus Vinicius dos Santos – jornalista CTMM Medicina UFMG