Além de reforçar a urgência de políticas climáticas globais, um estudo de longo prazo mostrou que ondas de calor extremo, mesmo as curtas, não provocam apenas mal-estar imediato. Quanto maior a exposição a mudanças bruscas de temperatura, mais rápido é o envelhecimento do corpo.
A revista Nature Climate Change trouxe na semana passada um artigo pra lá de quente (sic!). A pesquisa traz novas informações a respeito de como o clima afeta o corpo humano em silêncio, e de forma cumulativa. Conduzida por cientistas da Universidade de Hong Kong, da Guangzhou Medical University e da Harvard T.H. Chan School of Public Health, acompanhou quase 25 mil moradores de Taiwan, no Japão, ao longo de 15 anos.
“A onda de calor não é um fator de risco pessoal, mas uma preocupação global”, afirma a líder do estudo, Cui Guo, professora assistente no Departamento de Planejamento Urbano e Design da Universidade de Hong Kong. Este é um dos principais resultados do trabalho. E essas ondas de calor, cada vez mais intensas e frequentes, podem acelerar o envelhecimento biológico em adultos, encurtar a vitalidade do corpo e aumentar os riscos de doenças crônicas.
Aumenta com isso também a necessidade de que as nações do mundo tenham mais empenho com a proposição de políticas públicas que defendam a sustentabilidade e especialmente a saúde climática. Os Estados Unidos registraram apenas duas ondas de calor por ano nos anos 1960. Desde 2010, esse número já subiu para seis. Em países tropicais e populosos, como Índia e Brasil, a vulnerabilidade tende a ser ainda maior.
Como foi feito e o que se descobriu
O trabalho acompanhou quase 25 mil moradores de Taiwan entre 2008 e 2022, período em que o país enfrentou cerca de 30 ondas de calor, definidas como “vários dias consecutivos com temperaturas acima da média”.
A idade biológica dos participantes foi estimada por biomarcadores de exames médicos corriqueiros — sangue, pressão arterial e função pulmonar. Os dados foram comparados à temperatura local e confrontados com a idade cronológica. Cada acréscimo de exposição ao calor correspondeu a um aumento médio de 0,023 a 0,031 anos no envelhecimento celular.
Ou seja, ondas de calor não causam apenas desconforto. Elas afetam o corpo em nível celular, acelerando o desgaste. Estudos prévios já sugeriam que o calor intenso encurta os telômeros e provoca danos no DNA. “Mesmo pequenas alterações na idade biológica aumentam o risco de mortalidade e de doenças cardiovasculares”, reforça, a doutora em saúde pública, Cui Guo.
Impacto e desigualdade
As ondas de calor aceleram o envelhecimento de forma semelhante a hábitos de risco, como tabagismo e consumo excessivo de álcool. O efeito é ainda mais grave para trabalhadores braçais, moradores de áreas rurais e comunidades com menos acesso a ar-condicionado, onde as desigualdades sociais aumentam os riscos.
Embora os dados mostrem sinais de adaptação gradual entre 2008 e 2022, essa resiliência não eliminou os efeitos negativos. A disponibilidade desigual de meios de resfriamento continua reforçando disparidades socioeconômicas.
Confiabilidade e limitações
O método mostrou consistência, mas não captura todos os aspectos individuais de exposição ao calor, como tempo ao ar livre. Apenas 22% dos participantes passaram por mais de uma medição de saúde ao longo do período, o que limita o acompanhamento. Ainda assim, análises de robustez confirmam a solidez dos resultados.
Essas restrições não invalidam a mensagem central: se o calor extremo acelera o envelhecimento, proteger populações vulneráveis é uma obrigação de saúde pública e justiça social.
Próximos passos
Os autores defendem políticas de mitigação mais robustas e intervenções que ampliem o acesso ao resfriamento adequado, ao planejamento urbano e a estratégias de saúde pública. Pesquisas futuras devem investigar os mecanismos moleculares do envelhecimento induzido pelo calor e avaliar possíveis intervenções.
Financiamento e conflitos de interesse
O estudo recebeu apoio do HKU Seed Fund for Collaborative Research e da National Natural Science Foundation of China – Young Scientists Fund. Autores afirmaram não ter conflitos de interesse, sendo essa transparência necessária para reforçar a confiabilidade dos resultados.
No entanto, o principal alerta da equipe se refere à necessidade de enfrentar as mudanças climáticas não apenas para evitar o desconforto, mas para proteger milhões de pessoas contra o envelhecimento precoce, as doenças crônicas e a progressiva perda de qualidade de vida, de milhões de pessoas. Possivelmente, a médio prazo.
As marcas do calor no corpo humano são silenciosas e cumulativas, advertem. Quando multiplicado por milhões, esse efeito representa também uma carga social e econômica significativa. Reforçando os princípios da Pesquisa e Inovação Responsáveis (PIR), a participação social e a cobrança por políticas públicas são essenciais para transformar ciência em proteção coletiva.
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Texto: Marcus Vinicius dos Santos – jornalista CTMM Medicina UFMG