Consenso brasileiro orienta tratamento de tumor cerebral infantil; especialistas criam modelo nacional mais preciso e equitativo

Pesquisador do INCT NeuroTec-R participou da elaboração deste Consenso inédito, que estruturou 72 recomendações com testes moleculares hierarquizados e terapias direcionadas, adaptadas ao SUS e à diversidade regional. 


A revista The Lancet Regional Health Americas acaba de publicar o primeiro consenso brasileiro em medicina de precisão para tumores do sistema nervoso central na infância.

Elaborado sob orientação do Grupo Brasileiro de Medicina de Precisão em Oncopediatria (GBMPO), em parceria com a Sociedade Brasileira de Oncologia Pediátrica (Sobope), com participação do médico oncologista Kevin Augusto Farias de Alvarenga (foto), pesquisador do INCT NeuroTec-R, sediado na Faculdade de Medicina da UFMG.

O documento fornece estrutura organizada para a medicina de precisão em neuro-oncologia infantil, com testes moleculares hierarquizados, painéis de terapias direcionadas e critérios claros de aplicabilidade clínica.

São apresentadas 72 recomendações, organizadas por tipo de tumor, grau de essencialidade e aplicabilidade clínica. Isso representa um passo importante rumo à sistematização (e modernização) do atendimento de tumores cerebrais pediátricos no país.

Mais do que um conjunto técnico de recomendações, o texto estabelece uma lógica de implementação e moderniza a medicina de precisão nesse campo da saúde. De modo prático, ele orienta como priorizar exames conforme o impacto clínico e o acesso local às tecnologias. 

O que muda na prática

O consenso organiza os exames moleculares a área em dois níveis:

  • Testes essenciais, que impactam diretamente no diagnóstico, estratificação de risco ou decisão terapêutica padrão;
  • Painéis expandidos, indicados quando houver infraestrutura e indicação clínica específica.

Assim, os médicos oncologistas vão conseguir tomar decisões mais consistentes mesmo em contextos com recursos limitados. Ao mesmo tempo, o modelo evita tanto subtestagem quanto excesso de exames, por vezes até desnecessários.

O documento também adapta critérios internacionais ao contexto brasileiro. Ferramentas como OncoKB ou NCCN não são automaticamente aplicáveis ao país. Por isso, os autores incorporaram aspectos regulatórios da Anvisa e estruturaram recomendações compatíveis com a realidade do SUS e da rede privada, para serem capazes de aproximar a análise dos resultados, ainda mais, da realidade brasileira.

“Não se trata de copiar diretrizes estrangeiras, mas de ajustar a ciência à infraestrutura disponível, à regulação nacional e às diferenças regionais”, alerta Kevin Alvarenga. Segundo ele, essa abordagem pode ser um importante diferencial em um país continental.

Recomendações por tipo de tumor

Acompanhe abaixo um resumo simplificado do que o artigo propõe:

Tipo de tumorO que deve ser analisadoPor que isso importa
Gliomas de alto grauAlterações genéticas associadas a terapias-alvoPode direcionar medicamentos mais eficazes para cada perfil tumoral
Gliomas difusos do troncoPesquisa obrigatória de mutação associada a pior prognósticoConfirma diagnóstico e orienta estratégia terapêutica
EpendimomasClassificação molecular por perfil genéticoIdentifica subgrupos com comportamento clínico distinto
MeduloblastomasSubgrupos moleculares (WNT, SHH, Grupo 3 e 4)Ajusta intensidade do tratamento conforme risco

Benefício direto para pacientes

Quando o tumor é caracterizado com maior precisão, o tratamento pode ser ajustado. Isso significa que, tanto pode ser possível reduzir a intensidade terapêutica e, consequentemente, os efeitos colaterais. Em outros, indica terapias mais agressivas ou direcionadas, quando o risco é maior.

Além disso, o consenso descreve estratégias de menor custo, como imuno-histoquímica e PCR. Portanto, a proposta não visa expandir o uso de tecnologia indiscriminadamente, mas racionalizar as decisões clínicas.

O grupo também realiza reuniões multidisciplinares para se discutir casos complexos e orientam escolhas baseadas na relação custo-efetividade. Há ainda modelos de testagem centralizada já aplicados no país, incluindo uma iniciativa nacional que avaliou predisposição genética ao câncer em aproximadamente 650 crianças recrutadas em múltiplos estados, com análises realizadas em laboratório de referência.

Dimensão econômica e impacto social

A discussão financeira ocupa o centro do argumento. Afinal, a medicina de precisão envolve custos elevados. Testes moleculares e terapias direcionadas não são baratos. 

Uma projeção de que cerca de 11 milhões de crianças e adolescentes poderão morrer de algum tipo de câncer entre 2020 e 2050, chama a atenção para a urgência da necessidade de que esse atendimento seja ampliado ao máximo possível.

Além disso, análises econômicas internacionais estimam que a cada dólar investido em cuidado oncológico pediátrico cerca de três dólares retornem à sociedade.

Além disso, os autores chamam a atenção para um ponto menos debatido: o custo acumulado do tratamento inadequado. Práticas médicas que não alcançam o padrão ideal de excelência, chamados no texto de “regimes subótimos”, frequentemente levam a complicações, morbidade associada ao tratamento, sequelas tardias e impacto funcional prolongado, além de diversas repercussões sociais e econômicas duradouras.

A questão, portanto, não é apenas “quanto custa testar”. É justamente quanto custa não testar corretamente. Em outras palavras, investir em diagnóstico adequado desde o início pode evitar retratamentos, reduzir efeitos adversos e otimizar recursos em médio e longo prazo. 

Próximos passos

Os autores reconhecem limitações: o consenso ainda não contempla todos os subtipos histológicos. Enquanto o tipo histológico define as características da célula de origem, o subtipo histológico detalha a arquitetura dessas células. Logo, funciona como uma “RG detalhada” de um tumor. Usando microscópio, os médicos conseguem identificar formato e comportamento das células.

Outro ponto se refere a acesso à tecnologia. Mesmo não sendo o principal objetivo do Consenso, a disponibilidade de tecnologia na região do paciente é importante. “E quando estão indisponíveis, que é a realidade da maior parte do Brasil, parcerias entre instituições podem viabilizar que os exames sejam realizados”, esclarece o médico oncologista pediátrico mineiro, pesquisador do CTMM.

Além disso, o documento se propõe a orientar a integração da medicina de precisão à prática clínica, aos protocolos de pesquisa e ao planejamento de políticas públicas. 

“Em síntese, o Consenso não é apenas um conjunto de diretrizes técnicas”, observa Kevin de Alvarenga. O médico explica que o documento funciona como um ponto de partida para modernização progressiva do cuidado, uma vez que organiza prioridades, adapta ciência ao contexto brasileiro e sinaliza que o país começa a estruturar, de forma coordenada, um modelo nacional de decisão clínica em tumores cerebrais pediátricos, com base em evidências, viabilidade e responsabilidade social.

[Leia o artigo original]

Precision diagnosis and therapy for pediatric central nervous system tumors: consensus from the Brazilian Society of Pediatric Oncology (SOBOPE)
Kevin Augusto Farias de Alvarenga; Juliana Oliveira de Araújo; Marina Rezende da Silveira; Nicole Souza Silva; Mariah Rocha Coelho; Jéssica Achilles Pimentel; Alcânia Pereira dos Reis; Andrea Maria Cappellano; Bruna Minniti Mançano; Felipe D’Almeida Costa; Flávia Delgado Martins; Gabriela Oigman Bellas; Gustavo Ramos Teixeira; Israel Gomy; Lauro José Gregianin; Oswaldo Keith Okamoto; Paulo Vidal Campregher; Ricardo Camargo; Sima Esther Ferman; Elvis Terci Valera; em nome do Brazilian Committee of Precision Medicine in Pediatric Oncology (BC-PMPO) / Sociedade Brasileira de Oncologia Pediátrica (SOBOPE).
The Lancet Regional Health – Americas. 2026;57:101422.

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Texto: Marcus Vinicius dos Santos – jornalista CTMM Medicina UFMG