Educação rígida e hostil aumenta risco de transtornos disruptivos; pesquisa estima impacto global relevante

Educação rígida e hostil aumenta risco de transtornos do comportamento
Pesquisadores estimam que a prevalência global de transtornos disruptivos poderia cair cerca de 4% se crianças não fossem expostas a práticas como disciplina dura e coerção. Isso representaria cerca de 4,5 milhões deixando de atingir o critério clínico – Imagem Freepik.com

Revisão de estudos que envolveram cerca de 38 mil participantes mostra que práticas parentais negativas aumentam sintomas de transtornos disruptivos; já práticas positivas não apresentaram efeito causal consistente



Gritar, ameaçar, punir de forma imprevisível. Muitos pais fazem isso no calor do momento. No entanto, a pergunta central permanece: esse tipo de educação molda o comportamento das crianças ou apenas reage a ele?

Pesquisadores dos Estados Unidos, dos Países Baixos e da Suíça analisaram 45 estudos internacionais e reuniram dados de 38.591 crianças e adolescentes. Além disso, aplicaram métodos estatísticos voltados a identificar causa e efeito, e não apenas associação. Como resultado, concluíram que educar com rigor excessivo aumenta o risco de transtornos disruptivos do comportamento.

O que são transtornos disruptivos

Os transtornos disruptivos incluem o transtorno opositor desafiador (TOD) e o transtorno de conduta (TC). Eles envolvem agressividade frequente, desafio constante a regras, mentiras, furtos e perda recorrente de controle emocional.

Atualmente, cerca de 5,7% das crianças no mundo se enquadram nesses diagnósticos. Portanto, mesmo um efeito considerado pequeno pode ter impacto coletivo relevante. 

Segundo os autores, em um cenário hipotético no qual crianças não fossem expostas a práticas parentais negativas, a prevalência global desses transtornos poderia cair cerca de 4%, em termos relativos. Isso equivaleria a aproximadamente 4,5 milhões de crianças em idade escolar, deixando de atingir o limiar clínico para transtornos disruptivos.

Além disso, o impacto não se restringe às famílias. Uma redução dessa magnitude tende a aliviar a pressão sobre sistemas de saúde, assistência social e justiça. Quando milhões de crianças estão expostas, até mudanças discretas produzem efeitos amplos.

Como o estudo estimou causa e efeito

Outros trabalhos já haviam mostrado relação entre educação rígida e comportamento agressivo. Contudo, associação não é sinônimo de causa. Crianças com comportamento difícil podem provocar respostas mais duras dos pais. Além disso, fatores genéticos e ambientais compartilhados confundem a análise.

Para enfrentar esse problema, os pesquisadores analisaram apenas estudos quase-experimentais. Essa abordagem compara situações reais, como irmãos, gêmeos ou crianças adotadas, para estimar se determinado comportamento dos pais influencia diretamente o desenvolvimento dos filhos.

Práticas negativas e positivas

O efeito das práticas negativas foi relativamente consistente entre meninos e meninas e em diferentes idades. Surpreendentemente, apenas acrescentar afeto e apoio não mostrou efeito causal consistente na redução dos sintomas nesta pesquisa. O que pesou foi a diminuição do que é prejudicial, mais determinante do que apenas ampliar interações positivas.

Aí, a discussão vai além da psicologia. Se parte do risco é modificável, então a questão também envolve saúde pública e planejamento social. Pequenas mudanças na forma de educar, quando somadas em escala global, podem produzir efeitos relevantes.

Dessa forma, embora não tenha sido um assunto tratado no artigo, os autores sugerem que programas de treinamento parentais (saiba mais) poderiam ser um caminho importante para reduzir esses comportamentos negativos. 

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Texto: Marcus Vinicius dos Santos – jornalista CTMM Medicina UFMG